Castro e Capela de Nossa Senhora da Consolação

 

 

Castro e Capela de Nossa Senhora da Consolação

consolaO monte de Nossa Senhora da Consolação em Nogueiró foi habitado desde a idade do ferro. Assim o atestam os vestígios castrejos que a cada cavadela surgem há luz do dia.

 A capela que o coroa com a invocação de Nossa Senhora da Consolação é do séc. XVI, já que a 1ª confraria é de 1517. Resta saber quem nasceu primeiro, se a capela ou a confraria. Outra dúvida é se a capela atual é a primitiva do séc. XVI. Bem esta dúvida do facto de arquiteónicamente ser a atual de fraca traça e haver espalhados pelo recinto várias pedras trabalhadas tais como colunas e capitéis.

 É aprazível este monte com uma vista deslumbrante da cidade de Braga. Sendo essa uma das razões que o tornaram um ponte estratégico para quem se propunha conquistar a cidade. Por isso aqui assentaram arrais, Romanos, mouros, milicias internas e franceses.

Mas ouçamos um dos grandes estudiosos deste monte; o cónego Arlindo Ribeiro da Cunha.

Não me é fácil referir quantas vezes subi ao monte maravilhoso conhecido por Senhora da Consolação. Posso, porém, afirmar que, ao descer daquele outeiro de maravilhas, sempre me acompanham novas impressões e até mais simpatia pelos problemas culturais.

    Habitado desde a pré-história, lá se vêem ainda um respeitável e profundo fosso defensivo, restos palpáveis de muralhas e numerosos fragmentos de cerâmica, variada na qualidade da pasta  e na ornamentação. muita dessa olaria, velha de milénios, foi há pouco posta a descoberto pela abertura de valas para assentar alicerces de novas habitações.

     Mós manuais, grandes fragmentos de tijolos e um ou outro velho objecto de uso doméstico por ali se descobre igualmente a cada passo. Tem sido a linda estância pouco estudada e faltou o cuidado de resguardar, num pequeno museu monográfico, quanto por lá vai aparecendo. Ainda assim, no patamar das escadas para a torre, se acham três pés de moinhos caseiros iguais ou semelhantes aos aparecidos em outros «castros». A um dos cruzeiros da via-sacra que rodeiam a capela, serve de pedestal um capitel de ordem coríntia, de granito da região, de certo proveniente de qualquer outro templo, páleo-cristão ou visigótico, que por lá existiu.  Ficou enterrado ao contrário da posição natural, com a parte mais larga para baixo, e por isso só com uma escavação em redor se poderá estudar convenientemente.. Quando se isto fizer, ficaremos com mais um bom elemento para o estudo da história local.

     Outro capitel, mais pequeno e de forma diferente, veio lá cima e foi em boa hora arrecadado no museu do Seminário de Santiago. De secção quadrada, tem um festão em cada face e destinava-se por isso a nada se lhe encostar  de qualquer doa lados. Parece medieval e deverá ter rematado um dos colunelos que sustentariam o «cabido» da capela primitiva.

        Em geral, nas estações arqueológicas conhecidas pelo nome de «castro»- como a revezes acontece, o lugar de Castro fica mais abaixo e já na freguesia de Tenões-, houve um templo consagrado a uma divindade mitológica, a que, no decorrer dos séculos, sucedeu um santuário cristão. Não sabemos a quem ali prestariam cultos nossos antepassados de antes de Cristo, e desconhecemos igualmente se erigiu a primeira ermida cristã do monte da Consolação. Talvez os dois capitéis referidos acima, combinados com outros elementos que por ventura venham a aparecer, contribuíam para a solução do enigma.

       A capela actual não deve ter sido construída antes do século XVIII,  mas é quase certo que outra a precedeu. Na parte interior, conserva ainda uma bela cornija de granito, aliás infelizmente cortada quando se rasgou a porta para o recente coro alto.

       O retábulo do altar-mor é do estilo D.João V, do fim do período. A imagem da celeste padroeira é inferior em arte à que veio substituir e existe na sacristia. Está ladeada  pelas de São Joaquim e Santa Ana, ainda dignas de atenção de quem se interesse pela arte.

        Embora invulgar  na simbologia e nos elementos escultóricos, gostei de ver a imagem de Santo António, com o alforge do pão dos pobres e o Meninos Jesus, bem agasalhadinho com um vestido de seda, de pé em cima do livro do sábio Doutor medieval.

      O sino do campanário ufana-se da sua origem bracarense, dizendo em em bem legíveis caracteres: 1802/Joannes Ferreira Lima/ me fecit Bracarae- João Ferreira Lima me fez em Braga.

         Ao retirar, vi na sacristia, ao lado da imagem antiga de Nossa Senhora da Consolação, um quadro com as obrigações da Confraria. É pena que agora nem sequer se possa mandar dizer a Santa Missa nos domingos e dias santos de guarda.

          Cá  fora, depois de contemplar, mais uma vez, o deslumbrante panorama que de lá se desfruta sobre a cidade dos Arcebispos, reparei em mais um cruzeiro da via sacra. Como o de Santa Eulália de Rio Covo, o de São Torcato, o de Fervença e a de Esturãos (Fafe), apresenta, lavrados em exciso,  os instrumentos da paixão do Senhor: escada, coroa de espinhos, tenaz, cravo, dados e martelos. Só lhe falta o galo de São Pedro, que aparece nas outras cruzes referidas.

        Braga é opulenta em belezas naturais e em motivos de arqueologia e arte, mas nem por isso recantos como Nossa Senhora da Consolação do Monte devem ser esquecidos nem menosprezados.

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